Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Prlinpinpin...

Pózinho daqui... Pózinho dali...

Prlinpinpin...

Pózinho daqui... Pózinho dali...

Educação para o amor.

"

Se as pessoas são mal-educadas para a boa educação e para a sexualidade como podem ser felizes? 


1.Aquilo a que se foi chamando boa educação tem-nos estragado, devagarinho. Em primeiro lugar, a esmagadora maioria das pessoas foi mal-educada para os sentimentos.

 
Porque lhes disseram que há sentimentos bons e sentimentos maus, como se uns fossem toleráveis e os outros interditos.


Ora, aquilo que distingue os sentimentos é mais simples. Todos os sentimentos, pareçam recomendáveis ou maus, são bons. Assim nos sirvam para nos aproximarmos de quem nos lê por dentro, e com eles percebermos que só a obscuridade que se atribui ao que sentimos é uma dor que perdura. E dor sem remissão é maldade. Os sentimentos tornam-se maus quando, através deles, descobrimos, muito depressa, que as pessoas com quem imaginávamos contar para lhes pormos legendas (e nelas encontrarmos entendimento para nós) se transformam em forças de bloqueio para o nosso coração. Todos os sentimentos que nos desencontram de quem nos ama são maus. E até o amor, se se desacerta de quem amamos, magoa. E pode, por isso, tornar-se mau.


Em segundo lugar, fomos todos mal-educados para a agressividade. 


A agressividade liga o corpo ao pensamento. É tão natural como a sede. Injecta ira ou paixão nos nossos gestos. Quando se expressa, a agressividade, liga-nos a quem nos lê. Torna-se lúdica e pró-activa. E ética. E só assim aprendemos a ser agressivos com maneiras. Mas quando se guarda expressa-se com efeitos especiais e aos impulsos. Quando os impulsos são insuflados com fantasias de violência guardam-se mais e transformam-se em rancor. Ou «ódio de estimação», se preferirem. E ele assusta. Porque nos torna amigos (assustados) da violência.
Pelo menos nalguns períodos da nossa vida, todos somos aos bocadinhos amigos da violência. Basta que fujamos de a confiar a quem nos lê. (Na maior parte das vezes, tentamos que a violência que se sente de fugida fique, hermeticamente, fechada, dentro de nós. Fechamos o rosto, fechamos os gestos, e até o sorriso se fecha num esgar.) Viver a violência não nos torna odiosos. Aliás, quando encontramos quem a legende para nós, os sentimentos maus podem ter nessa experiência de comunhão, a porta com que se abre a nossa redenção.
Em terceiro lugar, fomos mal-educados para as palavras. 


As palavras engasgam-nos os gestos quando falar devia aplainar o coração. Todos os sentimentos são bons, repito, sobretudo se forem clareados por palavras. Mas se falar em jacto dum sentimento, inquina-o com o medo de não ser entendido, falar de forma encriptada, como se bastasse dizer o que sentimos mesmo que ninguém nos entenda, torna-nos amigos da solidão. Ficando por entender, os sentimentos (que são clarividência e são o que nos une) transformam-se naquilo que desliga. Isto é: sentimentos sem palavras são ressentimentos.
E, finalmente, fomos mal-educados para a imaginação.


Porque nos recomendaram que imaginássemos antes de agir, quando isso é, muitas vezes, uma belíssima forma de complicar. E porque nos sugeriram comedimento nas fantasias como se se imaginasse de cabeça na lua. Imaginar não é agir. E, apesar disso, a vida é sempre mais fácil quando se vive do que quando se imagina. Imaginar será trair? De certo modo, sim. Sobretudo, o melhor de nós. Que só se revela quando se vive.


Porque fomos mal-educados para os sentimentos, para a agressividade, para as palavras e para a imaginação, toda a cor daquilo que sentimos foi ficando pálida e tristonha. Não falamos dos sentimentos. Não dizemos «não» nem nos zangamos sempre que é preciso. E refreamos a imaginação. Estamos mal-educados para a boa educação. E, quando é assim, como se pode amar do coração até à pele? 


2. Mas também fomos mal-educados para a sexualidade. Eu sei que são precisos muitos anos para se saltar – com transparência, autenticidade e bondade – da fantasia para os gestos com sexualidade. Mas muitas pessoas passam, precipitadamente, das fantasias sexuais à parentalidade. É por isso que é urgente falar da sexualidade não tanto como o princípio do prazer mas como aquilo com que as pessoas constroem a sua infelicidade. Pelos sentimentos que guardam. E com o silêncio com que os revestem.


É por isso, e porque foram acumulando anos de mal-entendidos, que vivem a sexualidade como um débito conjugal. Ou sentem-na como um imposto de valor acrescentado duma relação conjugal. Outras, descobrem (muito tarde) que nem sempre o seu melhor amigo será um grande amor. (São essas as pessoas que se refugiam nas dificuldades no adormecer de alguns dos seus filhos. Ou, logo que vivem a sexualidade como uma experiência de infelicidade, elegem as dores de cabeça como uma febre de sábado à noite. Ou adormecem, clandestinamente, todos os dias, no sofá. Para protecção de todas elas, que serão a maioria dos portugueses, deveríamos tomar a sexualidade como uma questão de saúde pública.)


É por isso que a sexualidade não é tão natural como a sede. Apesar do desejo ser amor à primeira vista, a paixão é amor à segunda vista e o encantamento um amor à terceira. Não é um impulso biológico que se esgota num orgasmo e que daí se confunda alívio com prazer.
A sexualidade faz bem à saúde. Embora o erotismo não seja um lado animal que age em nós. O erotismo serve para ir ao encontro do outro. Mas só a ternura permite que se vá ao encontro do interior do outro (e do seu impacto estético na nossa vida).


A sexualidade é uma forma de conciliar – num só gesto – sensações, sentidos e sentimentos. E fazê-lo em dois ritmos que se casam numa mesma cumplicidade. E numa comunhão entre pessoas que se despem por dentro. 


A sexualidade leva-nos da superfície do corpo ao fundo da alma. Logo que se toca na pele toca-se dentro. Logo que se toca dentro o outro deixa de ser nosso. Deixa de ser outro. Passa a ser parte de nós.

Por tudo isto:
É urgente dessexualizar a educação. Deixar de imaginar que a proximidade pega fogo e que duas pessoas, em contacto com o ar, se tornam produtos mais ou menos inflamáveis. 


É urgente inabilitar todas as formas que tomam a sexualidade como uma tecnocracia para a felicidade. Quer quando se transforma a educação sexual numa burocracia de gestos isolada do afecto. Quer quando se fala de disfunções sexuais à margem dos ressentimentos que se esgueiram do corpo, sempre que são silenciados.


É urgente compreender que cada abraço não é um quero-te! mascarado de ternura, e que os sentimentos não se devem guardar fora do alcance das pessoas.


É, também, urgente desmentir que a contenção é o topo de gama da natureza humana, ao pé da qual todo o prazer deve ser castigado. O prazer é uma forma de descobrir que a minha liberdade começa onde começa a do outro.


É urgente fantasiar. As fantasias que nos surpreendem são próprias de quem namora com a vida. É por isso que a fantasia é o paraíso fiscal das infidelidades. Os pensamentos põem dúvidas onde parecia só poder existir a unanimidade da paixão e trazem infidelidades onde, antes, parecia só se tolerar a unicidade dos afectos. «Pecar» por pensamentos e por omissões faz bem à sexualidade. Põem em dúvida quem temos connosco: comparam, ambicionam e devaneiam. Pecar por pensamentos enriquece a relação amorosa, expande a sexualidade para fora do corpo e devolve-o ao pensamento com a convicção de que só pecando se chega ao céu. 


É urgente explicar que é proibido casar com o primeiro namorado. Pois só a pluralidade das experiências que nos interpelam torna urgente descobrir o que queremos em alguém que nos queira. 


É urgente acarinhar uma cultura do prazer. Prazer não é alívio. Prazer a qualquer preço é solidão. Prazer pelo prazer masturbação. Mas se for 1 em 2, prazer é comunhão. 


É urgente proibir que se case para sempre. E que se diga que uma relação, se não se cuida, não perdura amorosa, para sempre. Só as relações preciosas são frágeis. Só elas, sempre que nos decepcionam, nos matam para o amor. 


É urgente dizer que amar é sentir e palavrear duma só vez. É dizer eu e tu ao mesmo tempo. É esperar que o outro saiba sempre mais de nós do que nós próprios. É conceber a diferença entre imaginar que se voa e aprender a voar. E descobrir que um amor só é amor quando nos diz: sente-me em ti, olha por mim, fala por nós. ."

                                                                                   In: Pais & Filhos Escrito por Eduardo Sá Sexta, 24 Setembro 2010