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Prlinpinpin...

Pózinho daqui... Pózinho dali...

Prlinpinpin...

Pózinho daqui... Pózinho dali...

A Claridade das Fadas


A CLARIDADE DAS FADAS

Era uma vez um castelo feito de pedra negra e húmida, que se erguia, alto e
assustador, no cimo da montanha mais alta que havia num país de guerras e
guerreiros.


Ninguém se atreveria a pensar que naquele país moravam também fadas, com as
suas varinhas de luz e magia serena. Mas, por estranho que possa parecer,
moravam mesmo e usavam nomes bonitos e suaves. Pó de Estrelas, chamava-se uma.
Lua Branca, chamava-se outra. Fio de Luar, outra ainda. Era por estes nomes
pouco vulgares num país de guerras e guerreiros que eram conhecidas.


Havia quem sonhasse com elas um bocadinho todas as noites, à espera que
aparecessem para tornarem o país mais luminoso e alegre. Mas elas tinham medo
de aparecer. Viviam fechadas entre o arvoredo alto e verde da floresta e era
ali que faziam as suas magias e brincadeiras e cozinhavam sonhos e traquinices
dentro de um enorme caldeirão de vidro azul.


Só os unicórnios, as pombas e os esquilos conheciam o seu paradeiro e as
visitavam, a qualquer hora do dia ou da noite, para conversarem de tudo o que
lhes vinha à cabeça, mesmo das coisas sem importância de que quase ninguém
fala por achar que não vale a pena.


O rei D. Escuro II, que governava o país, gostava da escuridão e não se
importava que os outros vivessem nela, com os olhos tapados por nuvens sombrias
e farrapos de treva. Achava mesmo que essa era a melhor maneira de manter por
muitos e muitos anos o seu mando, feito de escuridão e falas a meia voz.


Aconteceu porém que um dia uma forte tempestade, vinda das bandas do mar,
abalou todo o país, fazendo estremecer castelos, cavalos e guerreiros,
semeando o medo entre as crianças e os animais da floresta.


Tão forte soprava a ventania que uma das fadas, a Fio de Luar, que se
encontrava a contar as estrelas do céu no ramo mais alto de um velho cedro,
foi arrastada, sem poder resistir, pelos braços poderosos do vento.


Voou, voou durante horas, sem rumo certo, não sabendo onde iria cair quando a
tempestade amainasse. Quando, ao alvorecer, o vento abrandou, deixou de
relampejar e a chuva parou de cair, a pequena fada, toda vestida de luz, foi
cair num grande salão de mármore negro, onde a única claridade era a do seu
rosto e a da sua varinha mágica. Não tardou a descobrir que se tratava da
sala do rei D. Escuro II que, sem demora, apareceu na sua presença, para lhe
pedir contas de tão inesperada visita.

«Que fazes tu aqui, pequena fada?» - perguntou.

«Vim aqui parar sem o querer, arrastada pela ventania» - respondeu Fio de
Luar.

«Tenho que decidir - disse o rei - o que vou fazer contigo, porque isto
não é sítio para fadas.»

Durante horas, o rei e os seus conselheiros discutiram o que haviam de fazer com
a pequena fada luminosa. Um dos conselheiros sugeriu então:

«Como vamos ter uma festa no palácio, podíamos pendurá-la no tecto para
animar os nossos convidados.»

Todos concordaram com a ideia, sem se darem conta de que, dessa maneira, iriam
encurtar o tempo do seu mando.

Içada a pobre fada para o tecto da sala no dia da festa, começou, sem que
ninguém lho ordenasse, a derramar a luz em todas as direcções, o que deixou
os convidados com a boca aberta de espanto.

«Que luz tão bonita!» - exclamavam.

«Nunca se viu uma coisa assim» - comentavam.

Daí até exigirem ao rei que arranjasse uma luz igual àquela para os outros
castelos e lugares públicos do reino foi um instante. O rei, claro, não
concordou e respondeu-lhes que se havia sítio onde não podia haver claridade,
esse sítio era o reino, porque a luz lhe fazia doer os olhos e a cabeça.

Pouca importância deram às preocupações do rei. De tal maneira que, por toda
a parte começaram a aparecer, mesmo nas casas mais modestas, pequenas fadas
luminosas, não suspensas do tecto para darem claridade, mas tratadas com
respeito e amizade, como se fizessem parte da família.

Assim se mudou a face inteira do reino, o seu rosto escuro e triste. O mando
passou a partir daí a ser uma coisa clara e simples, em vez de ser escura e
dolorosa.

Por toda a parte, sempre que as fadas estão em festa, é o triunfo da luz e da
claridade das manhãs que estão a festejar.


in José Jorge Letria, Fadas contadas

Sintra: C.M.Sintra, 1988